Desde o começo do ano eu venho acompanhando esse truta de Chicago. Esbarrei no trampo dele por meio do tumblr, reblogando umas paradas de animes, videogames e garotas coreanas. Essa afinidade sutil levou a uma conversa. Descobri que ambos curtimos fusion japonês (e que ele coleciona música tanto da Coréia do Sul quanto do Japão em vinil), que ambos somos meio que ‘lone wolfs’, que Colin também é MC, e que ele tem um programa de rádio mensal na numbers.fm.
O trampo dele como Violet Systems é bastante interessante. Colin está imerso na cultura footwork de Chicago. Ele apresenta sua própria versão, cruzando essas referências digitais e asiáticas com sua própria estilização do bagulho, menos frenético, tirando o pé um pouco da loudness war e apostando na sutileza e personalidade.
O Violet Systems meteu um remix na coletânea de remixes do Traxman que deve sair a qualquer momento, faz a sonorização de diversos eventos de arte em Chicago e está numa sequência de lançamentos no seu soundcloud que valem a pena observar com carinho. Ele prometeu uma mixtape pro BCD (e eu prometi uma mixtape pra Numbers.fm), mas ainda estamos em dívida um com o outro. Em breve, aqui.
Lucas Fernandes é de Bauru, no interior de SP. E é de se estranhar que não se fale mais dele. O disco aí embaixo, 21µg, é muito bom. Tem tudo que se pode esperar de um grande disco: amplitude, proficiência, estilo, cadência, relevância. Vai fundo com um fone de ouvido decente pra entender o rolê. (vale a pena visitar o soundcloud do akaaka e ouvir tudo).
p.s.: antenæ é onde a gente captura o magnetismo e decodifica 0 e 1 em joio e trigo. sintonize a parabólica.

A discografia do Victor Lucindo é bem complexa e interessante. Mas essa faixa “Slain”…. olha, é difícil você tropeçar em algo assim. Você revira a internet, suja as botas de poeira, vaga por grandes extensões de descampados… nada cresce. “Slain” tem 11 minutos e 12 segundos. Tem texturas rasgadas, distorção controlada. Progride de forma xamânica, ritualistica, cabal. Borbulha em um exercício perfeito de tensão e alívio, levantando uma cimitarra no ar contra a luz, um olhar de esgueio, um signo geométrico, o cheiro do mal. “Slain” lembra “Icon”, do Derrick May, se ela tivesse um filho com “The Sky Was Pink”, do Nathan Fake. “Slain” é uma das melhores faixas de 2014. Aqui, ali e acolá. Ponto.
O Iridescent vem tocando aos poucos por São Paulo, andou compartilhando composições com o Babe, Terror, participou da coletânea Hy, Brazil e está com o caminho aberto pra plena ascendência: momento certo pra registrar uma mixtape do cara no BCD.
A tua mixtape tem mais uma vibe coleção de músicas mesmo, até mesmo porque você não mixa. Você nunca teve interesse em mixar, tipo dj mesmo?
Eu acho interessante e é uma coisa que pretendo aprender em certo momento. Mas a minha formação foi mais de rock alternativo e experimental, então eu sempre foquei mais em produzir e tocar, e esse lado de pensar em sets foi ficando meio de lado.
Você se sente pressionado a tocar outras coisas além do seu trabalho autoral?
Não me sinto pressionado não. Talvez se eu fizesse dj sets poderia tocar mais vezes, mas no momento estou colocando todas as energias em um live. Se rolar em determinado momento, é porque parece ser divertido fazer, mas não por uma sensação de que é algo que eu deva fazer.
Parece uma discussão meio antiquada e tal, mas o paradigma no Brasil sempre foi de termos muito mais djs do que produtores, ainda mais falando de música eletrônica. Existe alguma coisa que você acha relevante no ofício de disc jockey, enquanto forma de arte?
Estava conversando outro dia mesmo com amigos sobre essa cultura de produtores no Brasil ser recente. É uma forma de se expressar que caminha entre a arte, no que diz respeito a um DJ ter identidades próprias do seu trabalho, etc, e o entretenimento puro, tipo a pista que não pode parar. Quando funciona é maravilhoso. Gosto de ver sets como os do MJP, por exemplo, por que ele consegue usar fragmentos de tracks em diversos contextos de maneira muito pessoal, e você pode parar e prestar atenção nos detalhes ou simplesmente dançar. No fim das contas, acaba não fazendo diferença se é live ou dj set, é boa música ao vivo.
Você acha que a música necessita de fato desse momento de contato entre criador e público?
Não necessariamente. O ouvinte estabelece uma relação muito íntima com uma gravação que já não pertence ao criador, e eu sempre me relacionei bastante com música dessa maneira. Ao mesmo tempo, ver música ao vivo traz insights incríveis. Ver Squarepusher ao vivo, por exemplo, mudou muita coisa pra mim. Mas são jogos diferentes com regras diferentes. Não acredito que um músico ou produtor necessariamente precise se conectar in loco com o público pra ter seu trabalho validado.
Você está conectado com a galera do selo Step In Recordings. Como vocês planejam trabalhar seus lançamentos num futuro próximo, nessa dicotomia música gravada/música performada?
Bom, tem um split EP meu com o Missiles At A Wedding saindo já já. Acho que a grande questão do selo nesse momento é torná-lo real e palpável além da internet. Além de lançamentos físicos, a gente quer fazer live sets, tem esse desejo de tocar ao vivo, num PA legal e tal. Mas estamos tomando cuidado pra construir uma identidade pro selo, e isso inclui como, quando e onde tocar. Definitivamente existe o desejo de tornar as gravações do selo um ponto de partida pra performances.
O seu catálogo musical é bem focado em texturas. Qual é a textura sonora que você mais gosta?
Difícil essa. Gosto da textura de máquinas funcionando e criando ritmo e harmonia sozinhas. Acontece o tempo todo se você prestar atenção.

Quando fiquei sabendo da notícia que Fatima Al Qadiri lançaria seu próximo EP pela Hyperdub senti algo como uma tempestade neural. Dois universos musicais altamente complexos, cada um com sua própria iconografia e relevância, entrariam em contato: Fatima, representando o megacluster brutalista distópico futurista Fade to Mind/Night Slugs, traria sua sensibilidade globalista para dentro do selo que talvez seja o mais importante dos anos 2000 quando se fala de música eletrônica. Essa posição de destaque da Hyperdub tem suas implicações. Quase todos os lançamentos do selo tem uma característica sisuda e auto-consciente, sem muito espaço para questionamentos mais lúdicos e inquisitivos. O Hyperdub é música pela música. Já a produção de Fatima sempre teve aspecto de comentário; em muitos momentos sua produção musical funciona muito mais como um acessório, uma escada para reflexões maiores sobre assuntos outros, muitas vezes inserida em contextos artísticos multimídia.
A primeira faixa do EP Asiatisch desce torta e certamente deve ter desagradado os fãs mais xiitas da Hyperdub. “Shanzai”, com a participação da cantora chinesa natural de Pequim Helen Feng, é uma versão pirateada do hino da dor de cotovelo de Sinead O'Connor, com harmonias desfalcadas de diversas notas. Aqui, o comentário já vem rasgando: a industrialização da engenharia reversa chinesa, desconstruindo a aura do branding ocidental, cospe de volta a essência bruta, funcional e violenta.
Fatima, uma artista conceitual por excelência, decidiu construir o mini-álbum em torno da noção distorcida que nós como ocidentais temos do que é o oriente, mais especificamente o vasto e amplamente desconhecido continente chinês. O disco está cheio de vozes robóticas falando mandarin, instrumentos de corda asiáticos como o Erhu e o Guzheng, timbales e timbres sintetizados mecânicos e épicos. O template utilizado por Fatima como conversor musical universal é o hip hop, uma linguagem massificada facilmente deglutida por orientais e ocidentais. A linguagem proposta atinge o objetivo: cria um universo rico, que coincide com a projeção individual da China como esse ambiente onde dragões eletrônicos riscam as ruas ao lado de carros e bicicletas, iluminados por letreiros em neon multicoloridos, onde anciões convivem com hackers, e as cidades crescem vertiginosamente em direção ao céu.
Porém, enquanto coleção de canções, o EP Asiatisch fica devendo alguma coisa. No contexto da discografia de Fatima, o disco é mais uma exploração consciente, mas que não abre novos caminhos nem alcança novos patamares. No contexto da discografia da Hyperdub, o EP é só uma curiosidade e não chega a movimentar os parâmetros que guiam a evolução do selo. No geral, Fatima se mostra afiada em conceitos bem delineados. Em outros momentos da sua produção, como no projeto Future Brown (ao lado de Nguzunguzu e J-Cush), ela atinge picos de grandeza que se mostram mais tímidos na sua produção autoral. Mas sempre vale a pena prestar atenção a música que ousa questionar conceitos pré-estabelecidos.

Há algum tempo atrás, eu falava sobre a impossibilidade de considerar uma cultura do bass no Brasil. A definição de cultura como um conjunto de manifestações artísticas e intelectuais que ganham vida por meio de práticas coletivas deixa claro que os ritos de celebração são importantíssimos para que uma determinada microcultuta se estabeleça. O termo “cultura clubber” foi aceito nos mais diversos dicionários durante os anos 90 porque as manifestações coletivas em torno da música eletrônica se tornaram tão representativas dentro da cultura jovem que não havia como negar que a experiência coletiva daqueles jovens se cristalizava em hábitos, gostos e mentalidades comuns. A música sempre foi um grande catalisador cultural. Ela reflete de forma óbvia as agitações sociais.
Nesse sentido, grandes acontecimentos como a Colab 011 com participação de Rashad e Machinedrum, frente a um público expressivo e, mais do que tudo participativo, marcam a passagem de bastão entre uma cultura e outra. A cultura clubber repete modelos e padrões típicos dos anos 90 e já não representa os tempos atuais; a cultura bass, muito mais condizente com o mundo fraturado de 2014, toma seu lugar. O Machinedrum apresentou a multitude de possibilidades da sensibilidade bass atualmente, mimetizando por meio do som a inquietude de uma geração. Rashad foi um monstro, um rolo compressor, passando por cima de qualquer escombro do passado sem dó nem piedade. CESRV, Akin, Soul One, Mjp, Tamenpi, U-Rso e todos os outros que tocaram na noite representaram o papel de mediadores de uma cerimônia especial.
Sorrisos sinceros, energia cinética, inclusão, determinação e otimismo iconoclasta. Essas são as marcas dessa cultura que se estabelece, à nossa forma. Não há mais espaço pra carão e área vip. Não há mais como viver dentro de pequenas bolhas utópicas. Não há mais como negar o mundo. Não há mais tempo. Há pra frente o futuro. E essa galera toda está bastante ansiosa.
fotos: ariel martini/i hate flash